Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

As Cartas que o Vento Não Leva

Há mundos dentro de nós que ninguém vê.

Mundos feitos de corredores silenciosos, janelas que rangem ao amanhecer e portas secretas que só se abrem quando a alma pede.

Ontem, uma dessas portas se abriu em mim — não por escolha, mas por impacto.

Foi como se uma rajada de vento atravessasse o corredor e bagunçasse todos os papéis que eu guardava com cuidado.

 

Não era vento.

Era palavra.

E palavras, quando jogadas sem amor, costumam ser mais cortantes que lâminas.

 

Há algum tempo venho percebendo algo no ar…

Como se um bando de pássaros, antes harmonioso, tivesse começado a bater asas de um jeito estranho, produzindo ruídos que escondem descompassos.

São coisas pequenas, quase invisíveis — mas que o coração, esse velho farol atento, percebe antes dos olhos.

 

Alguns pássaros passaram a vigiar o céu como se tivessem medo das asas alheias.

Como se temessem que novos voos mudassem o desenho do horizonte.

Como se o céu fosse pequeno demais para todos.

 

Curioso: O céu sempre coube.

O céu é vasto por natureza.

Mas há quem insista em fechá-lo dentro do próprio peito.

 

Eu e quem caminha comigo sempre voamos com leveza.

Nunca disputamos altitude, nunca pedimos vento emprestado, nunca abrimos céu à força.

Nossos voos nasceram do esforço silencioso de movimentar asas que ninguém treinou por nós.

Asas que aprendemos a sustentar na maré do tempo, no peso dos dias, na coragem de continuar.

 

E então, ontem, uma frase chegou como uma pedra jogada para o alto — e que, inevitavelmente, caiu sobre mim.

Não falava de fatos, nem de verdades, nem de ventos reais.

Falava de intenções inventadas, ambições que nunca pousaram em nosso ninho, desejos que jamais nos pertenceram.

Há palavras que chegam grávidas de equívoco.

E essa chegou pesada.

Por um instante, minha asa doeu.

 

Mas o tempo — esse mestre paciente — me lembrou de algo essencial:

pássaros não se explicam.

Pássaros voam.

E o voo, quando é verdadeiro, responde sozinho.

 

A vida sempre nos ofereceu horizontes diferentes.

Outros céus, outros ninhos, outras altitudes possíveis.

Eram caminhos reais, concretos, vivos.

Quase seguimos por eles.

Quase mudamos o rumo.

Quase reinventamos o vento.

 

Mas cada escolha foi feita com o mapa da alma.

Não com o desejo de subir, mas de permanecer inteira.

Não com a pressa do alto, mas com o cuidado das raízes invisíveis.

 

Hoje, ao escrever esta crônica, sinto que o peso da frase de ontem já começou a evaporar — como gotas deixadas ao sol.

A escrita, quando honesta, é um alívio silencioso:

transforma o que fere em plumagem nova.

 

E então me lembro:

não pertenço a um pedaço de céu.

Nem a um bando específico.

Nem a um campo demarcado.

 

Eu pertenço ao vento que não engana,

ao voo que não compete,

ao horizonte que se abre para todos,

à verdade que sustenta asas mesmo nos dias de tempestade.

 

E as amizades verdadeiras — ah, essas são constelações:

não disputam espaço,

não se apagam ao brilho do outro,

não se perdem no escuro.

 

Ficam.

Acompanham.

Guiãm.

 

Escrevo para me lembrar:

a alma que voa com sinceridade jamais se perde.

O vento que a carrega sabe exatamente onde pousá-la.

E o que é verdadeiro — absolutamente verdadeiro — nenhuma rajada leva.

 

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 15/11/2025


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