

☕ Crônica: “A vida em parenteses” ✨
Acordei decidida: hoje seria o dia de cumprir toda a lista de tarefas. A lista, aliás, tinha sido escrita ontem, reorganizada à noite e redesenhada de madrugada porque, convenhamos, uma lista precisa ficar bonita para funcionar.
Comecei pelo item número um: “Arrumar a mesa”. Toquei na caneta e lembrei que precisava responder uma mensagem. Abri o celular e me deparei com outra notificação. Então lembrei do e-mail que estava pendente há três dias. Abri o e-mail e percebi que precisava pegar um documento na gaveta. Abri a gaveta e encontrei um chocolate. Comi o chocolate, claro — afinal, ninguém é de ferro.
Quando dei por mim, estava reorganizando um armário que nem fazia parte da lista. E a mesa continuava lá, sorrindo ironicamente para mim, com seus papéis bagunçados.
O TDAH é assim: uma dança entre o foco e o mundo, entre o impulso e as boas intenções. A gente começa no “vou só ali” e termina no “como vim parar aqui?”. É viver com o cérebro sempre no modo 50 abas abertas, sendo que duas travaram e uma está tocando música que ninguém sabe de onde vem.
Mas existe também o lado bonito: a criatividade que brota nos desvios, a sensibilidade que surge nos detalhes, o humor que nos salva nas confusões e a força de continuar tentando — todos os dias — organizar esse universo interno tão cheio de vida.
No fim da tarde, finalmente voltei para a mesa. Olhei para ela, para a lista e para mim mesma. “Tudo bem”, pensei. “Hoje pode ser que eu não tenha feito tudo. Mas fiz o que deu. E amanhã, a gente tenta de novo.”
Porque viver com TDAH é isso: aprender a rir, a recomeçar e a transformar cada parêntese em poesia.
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 03/12/2025
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