Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

🌪️ “A Linha Reta que Virou Espiral” 🌪️ Uma crônica sobre viver com TDAH

 

Eu juro que acordei determinada: hoje eu ia ser uma pessoa organizada. Comecei arrumando a cama — ou melhor, comecei indo arrumar a cama, porque no caminho até o quarto encontrei uma caneta, que me lembrou de um bilhete, que me lembrou de uma ideia, que me lembrou que eu precisava muito beber água.

 

E assim se passou 1 hora.

 

Quando finalmente voltei pra cama, já sem lembrar mais por quê, vi que o lençol estava torto e pensei: “Nossa, preciso lavar isso hoje.” Peguei o lençol, fui até a lavanderia… e lá encontrei uma meia que eu tinha perdido há três semanas. A sensação de vitória foi tão grande que esqueci completamente do lençol, do quarto, da cama, da casa, da vida.

 

Meu cérebro fez ali uma festa. Dopamina gratuita. E lá fui eu viver o resto da manhã sentindo que estava com a vida em ordem porque a meia perdida foi encontrada. Não existe sensação de produtividade mais perfeita que essa — ainda que completamente ilusória.

 

À tarde, decidi que ia focar. Liguei o computador, abri o arquivo, respirei fundo… e fiquei olhando a tela como se ela fosse revelar algum segredo místico capaz de ativar o modo concentração ninja. Não revelou. O cérebro, porém, presenteou-me com a brilhante ideia de pesquisar por 15 minutos “como organizar a vida”. Resultado: 1 hora vendo vídeos de pessoas que têm planilhas coloridas, calendários sincronizados, e uma expressão de paz que eu só consigo imaginar que seja fruto de uma fábrica interna de serotonina.

 

Eu? Eu tenho abas. Muitas abas. A vida, para quem tem TDAH, é uma grande metáfora de abas abertas.

 

Mas no meio desse caos vivo, tem uma beleza que pouca gente percebe. É uma criatividade que brota sem esforço, uma capacidade de conectar ideias que parecem distantes, um entusiasmo que acende de repente e ilumina o mundo inteiro. É viver como quem vê cores onde outros veem cinza. É sentir intensamente, pensar rápido, imaginar sempre.

 

Sim, às vezes eu me perco. Mas também me encontro de maneiras que ninguém mais encontra.

 

E no fim do dia — mesmo que a cama continue desarrumada, o lençol siga na lavanderia e a meia perdida tenha se tornado meu maior troféu — eu sempre sei que amanhã tem mais. E que cada dia, do meu jeito espiralado, vai ser único.

 

Porque ser TDAH é isso:

Um caos poético.

Uma confusão produtiva.

Uma aventura diária dentro da própria mente.

 

E, sinceramente? Eu não trocaria essa montanha-russa por trilho nenhum.

 

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 03/12/2025


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