Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Só um Minutinho” — Crônica de Quem Vive no Modo Alt+Tab

 

Quem convive com TDAH conhece uma verdade universal: nada é tão rápido quanto o “já vou” de alguém com atenção saltitante.

É quase poético. Quase.

 

A pessoa decide levantar para pegar um copo d’água. Fácil, né?

Mas no caminho ela vê o sapato no chão, lembra que não guardou, pensa que talvez esteja na hora de arrumar o armário, abre a porta do armário, encontra um papel importante, decide levar o papel para a mesa, chega na mesa e…

— Meu Deus, eu esqueci de responder aquele e-mail!

 

O copo d’água? Nunca chegou.

O sapato? Continua no chão, testemunha ocular da confusão.

O e-mail? Virou prioridade.

E a vida segue como um carrossel sem botão de pausa.

 

Há quem ache exagero. Mas a rotina de quem tem TDAH parece escrita por um roteirista hiperativo.

Por exemplo: a lista de tarefas.

Lá está ela, impecável, organizada, colorida.

Mas basta um som, um pensamento ou uma partícula de poeira fazendo acrobacias no ar para tudo virar outra história.

É como se cada ideia dissesse:

— Olha aqui! Eu também sou importante! Me escuta! ME ESCUTA AGORA!

 

E não dá para negar: a cabeça com TDAH tem uma criatividade invejável.

Em um minuto pensa no trabalho, no aniversário da madrinha, no meme do cachorro, na teoria da relatividade e no fato de que talvez o abacate da geladeira esteja triste.

Tudo isso enquanto alguém pergunta:

— Você pode me ouvir dois segundos?

E você até pode…

Mas só depois de organizar mentalmente 17 pensamentos simultâneos e um lembrete que surgiu do nada.

 

O lado bom?

Ninguém enxerga conexões tão improváveis.

Ninguém tem ideias tão rápidas.

Ninguém transforma esquecimentos em histórias tão divertidas.

 

O lado desafiador?

Bem… digamos que manter foco é como tentar segurar sabão molhado.

 

Mas entre tropeços, risos, alarmes no celular e a clássica frase “onde eu coloquei meu celular?”, a vida segue viva, colorida e surpreendente — sempre com espaço para um pensamento novo e uma nova tentativa.

 

Porque, no fundo, quem tem TDAH vive no modo “criatividade turbo”.

E se às vezes falta foco…

Sobra mundo.

 

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 06/12/2025


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