

Crônica — A Dieta que Sempre Começa na Segunda
A segunda-feira chegou com aquele ar solene de recomeço, como se abrisse uma porta novinha em folha para uma vida mais leve — literalmente. A geladeira, testemunha silenciosa de todos os fracassos anteriores, me olhava com a luz interna piscando, quase debochada.
— Agora vai — sussurrei para mim mesma, fechando a porta com a firmeza de quem encerra um ciclo.
Comecei o dia com um copo d’água, daqueles que prometem milagres: pele melhor, metabolismo acelerado, talvez até disciplina. A cada gole, parecia que eu assinava um contrato de compromisso com o universo.
Primeiro desafio: o café da manhã. Internet inteira dizendo que é a refeição mais importante do dia, mas ali estava eu comendo uma banana e fingindo que não lembrava do pão francês quentinho da padaria. A vitória se fez presente, discreta, mas se fez.
Às dez da manhã, o mundo corporativo resolveu conspirar. Reunião. Mesa. E o quê? Uma bandeja de biscoitos amanteigados sorrindo para mim. Não eram biscoitos. Eram tentações com cheiro de infância, de lanche da escola, de tudo o que a dieta diz que não posso.
A fisiologia explica: o cérebro ama açúcar. Mas a consciência responde: você prometeu. Respirei fundo, tomei água — sempre ela, a coadjuvante heroica — e resisti.
O almoço chegou com a surpresa que todos que já fizeram dieta conhecem bem: a sensação de que comer saudável exige mais criatividade do que escrever um romance. O frango grelhado parecia me julgar. A salada, coitada, me oferecia apoio moral, mas sem nenhuma emoção.
Ainda assim, segui.
À tarde, o destino resolveu brincar comigo: uma amiga mandou mensagem. “Vamos tomar um café?” Café, na linguagem adulta, significa: bolo, torta, pão, croissant e talvez café. Declinei. Disse que estava “sem tempo”. A verdade é que estava sem coragem.
Ao fim do dia, já exausta de tanto dizer não para o mundo, preparei meu jantar leve. Me senti quase espiritual, como se a constância tivesse um brilho próprio.
E quando me deitei, percebi que fazer dieta é menos sobre comer e mais sobre conversar com a própria vontade. É negociar com a mente, que ama atalhos, ama recompensas rápidas, ama tudo o que a disciplina pede para evitar.
A dieta não é sobre o peso. É sobre o espaço que decidimos dar para nós mesmas. E, mesmo sabendo que amanhã talvez eu tropece diante de um brigadeiro, hoje eu venci.
E assim sigo — tentando, recomeçando, aprendendo que cada segunda-feira pode ser um novo ponto de partida.
Elaine Castelo Branco ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 06/12/2025
Comentários
|