

Entre o Medo e o Cuidado: A Vivência da Pessoa com TDAH diante da Intervenção Odontológica
Entre o Medo e o Cuidado: A Vivência da Pessoa com TDAH diante da Intervenção Odontológica
Elaine Castelo Branco- Promotora de Justiça Direitos Constitucionais Fundamentais e Direitos Humanos Especialização em Múltiplas Intervenções no Transtorno do Espectro Autista Coach em TDAH Resumo A experiência de pessoas com Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) em procedimentos odontológicos revela desafios que extrapolam o aspecto clínico, envolvendo fatores sensoriais, emocionais e cognitivos que impactam diretamente a adesão e a efetividade do tratamento. Este artigo analisa tal vivência sob a perspectiva dos direitos constitucionais fundamentais e dos direitos humanos, destacando a necessidade de um atendimento odontológico humanizado, inclusivo e individualizado. Defende-se que comportamentos frequentemente interpretados como resistência ou falta de colaboração constituem manifestações próprias da neurodivergência, exigindo estratégias empáticas e adaptativas. Conclui-se que a humanização do cuidado odontológico é dever ético, constitucional e profissional, essencial à efetivação do direito à saúde em sua dimensão integral. Palavras-chave: TDAH; neurodivergência; atendimento odontológico; humanização da saúde; direitos humanos. Introdução O Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH) configura-se como uma condição neurobiológica que afeta a atenção, a autorregulação emocional e o controle comportamental. No contexto da assistência à saúde, especialmente no atendimento odontológico, essa condição impõe desafios específicos que exigem um olhar técnico aliado à sensibilidade humana. A apreensão vivenciada por pessoas com TDAH diante de intervenções odontológicas não pode ser reduzida a um desconforto pontual. Trata-se de uma experiência subjetiva complexa, permeada por ansiedade antecipatória, hipersensibilidade sensorial e dificuldades de manutenção da atenção, fatores que interferem tanto no bem-estar do paciente quanto na condução adequada do procedimento clínico. À luz dos direitos constitucionais fundamentais, em especial o direito à dignidade da pessoa humana e à saúde, impõe-se a necessidade de práticas assistenciais que reconheçam e respeitem as singularidades neuropsicológicas dos indivíduos. Nesse sentido, o presente artigo propõe refletir sobre a vivência da pessoa com TDAH no ambiente odontológico, sob uma perspectiva humanizada e inclusiva. Aspectos Neuropsicológicos e Direitos Fundamentais no Atendimento Odontológico O ambiente odontológico apresenta características potencialmente desorganizadoras para pessoas com TDAH. Estímulos sonoros contínuos, iluminação intensa, odores específicos e a exigência de permanência imóvel por períodos prolongados podem ocasionar sobrecarga sensorial significativa. Esses fatores, aliados à imprevisibilidade percebida do procedimento, tendem a intensificar a ansiedade e o medo, frequentemente antes mesmo do início do atendimento. A antecipação da intervenção odontológica constitui um fator relevante de sofrimento psíquico, manifestando-se por pensamentos acelerados, receio da dor, insegurança e medo de não conseguir manter o controle emocional e comportamental. Durante o procedimento, tais aspectos podem resultar em inquietação, tensão muscular, dificuldade de seguir orientações e sensação de perda de controle. É imprescindível compreender que essas manifestações não decorrem de resistência voluntária, indisciplina ou desinteresse pelo tratamento. Ao contrário, representam respostas neurobiológicas próprias do TDAH, relacionadas a dificuldades de autorregulação emocional e de processamento sensorial. A interpretação inadequada desses comportamentos pode levar a práticas excludentes, reforçar estigmas e comprometer o direito ao atendimento digno e respeitoso. Sob a perspectiva dos direitos humanos, o atendimento em saúde deve ser pautado pelo reconhecimento das singularidades do paciente. No caso da pessoa com TDAH, estratégias como comunicação clara e antecipada, explicação detalhada das etapas do procedimento, previsibilidade do tempo de duração, pausas programadas e adaptação do ambiente clínico mostram-se eficazes na redução da ansiedade e no fortalecimento do vínculo terapêutico. Humanizar o atendimento odontológico, portanto, significa adotar práticas fundamentadas na empatia, no conhecimento técnico sobre a neurodivergência e no compromisso ético com a inclusão. Trata-se de compreender o cuidado em saúde como uma experiência integral, que abrange não apenas a dimensão clínica, mas também a emocional e a cognitiva do paciente. Conclusão A vivência da pessoa com TDAH diante de intervenções odontológicas evidencia a necessidade de um modelo assistencial que ultrapasse o enfoque estritamente técnico. Reconhecer as especificidades da neurodivergência é condição essencial para assegurar um atendimento seguro, eficaz e respeitoso, em consonância com os direitos constitucionais fundamentais. Humanizar o cuidado odontológico implica garantir previsibilidade, segurança emocional e respeito à diversidade neuropsicológica, promovendo um ambiente no qual o medo seja gradativamente substituído pela confiança. Tal postura configura-se não apenas como uma boa prática profissional, mas como um dever ético, constitucional e humano, indispensável à efetivação do direito à saúde em sua concepção integral.
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 16/12/2025
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