

A mente que não anda — ela corre maratona
de TDAH
A mente que não anda — ela corre maratona Dizem que quem tem TDAH vive no mundo da lua. Eu discordo. Quem tem TDAH vive em todos os mundos ao mesmo tempo. A cabeça não para. Ela não anda em linha reta. Ela faz curvas, atalhos, desvios, retornos, pensamentos profundos às 3 da manhã, grandes ideias… e esquece o que ia fazer quando chegou na cozinha. Quem vê de fora acha que é distração. Mas não é distração. É excesso de atenção em tudo ao mesmo tempo. É como se o cérebro tivesse: 37 abas abertas, 4 músicas tocando, 2 preocupações existenciais, uma ideia genial, e uma pergunta urgente: — Onde foi que eu deixei a chave? O TDAH não é falta de responsabilidade. Não é falta de interesse. Não é preguiça. O TDAH é, muitas vezes, o cansaço de tentar organizar um mundo que acontece rápido demais por dentro. Mas tem uma coisa que quase ninguém fala: Quem tem TDAH geralmente sente tudo mais forte. A alegria é gigante. A tristeza é funda. A injustiça dói fisicamente. A empolgação vira projeto. O projeto vira missão. A missão vira propósito de vida — em três dias. E, às vezes, a pessoa já está em outro projeto antes mesmo de terminar o primeiro. Quem tem TDAH não é desatento. É intensamente atento à vida. O problema é que o mundo cobra linha reta de quem nasceu para pensar em espiral. E talvez o TDAH não seja apenas um transtorno. Talvez seja também um jeito diferente de ver o mundo, de sentir o mundo, de se importar com o mundo. Talvez seja por isso que tanta gente com TDAH quer mudar alguma coisa, consertar alguma coisa, melhorar alguma coisa, ajudar alguém, criar alguma coisa. Porque a mente não para. E o coração também não. No fim das contas, viver com TDAH é mais ou menos assim: Você esquece a água no fogo, mas lembra da dor de alguém. Você perde a chave, mas encontra soluções. Você se atrasa, mas quando chega, chega inteiro. Você começa o dia organizando a agenda… e termina o dia com uma ideia nova, três projetos e sem saber onde colocou a agenda. E talvez seja isso. Talvez o TDAH não seja sobre não prestar atenção. Talvez seja sobre prestar atenção demais no que realmente importa. No meio do caos, da bagunça, dos atrasos, das ideias e das chaves perdidas, existe uma mente que não para e um coração que também não. E, no fim, é isso que move o mundo. Elaine Castelo Branco ✍️ Promotora de Justiça e escritora
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 21/03/2026
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