

Crônicas de TDAH: Manual não autorizado de como viver com 78 pensamentos ao mesmo tempo
Crônicas de TDAH: Manual não autorizado de como viver com 78 pensamentos ao mesmo tempo
Viver com TDAH é uma experiência muito interessante. Principalmente para quem observa. Porque para quem vive… é quase um esporte radical. A pessoa com TDAH acorda e pensa: — Hoje vou organizar minha vida. Aí ela pega o celular para ver a hora, vê uma mensagem, responde a mensagem, lembra de um e-mail, abre o e-mail, lembra de um projeto, abre o projeto, vai pegar um café, no caminho vê uma coisa fora do lugar, arruma, acha uma foto antiga, começa a lembrar de 2007, pesquisa uma coisa no Google, e quando percebe… não viu a hora. Mas viu um documentário. Teve uma ideia de projeto social. Resolveu um problema que ninguém tinha pedido. E esqueceu o café no micro-ondas. Quem tem TDAH não se distrai. Ele apenas se interessa por tudo ao mesmo tempo. É diferente. A mente da pessoa com TDAH funciona assim: — Preciso pagar aquele boleto. — Nossa, seria interessante fazer um projeto de prevenção em comunidades. — Onde está minha caneta? — E se a gente criasse um programa novo? — Tenho que beber água. — Será que esqueci o carro aberto? — Vou mudar o mundo. — Cadê minha caneta mesmo? É uma mistura de: empreendedor, filósofo, esquecido, criativo, cansado, animado, tudo junto, ao mesmo tempo, agora. Outra coisa que ninguém conta: A pessoa com TDAH pode estar parada olhando para o nada. Mas por dentro ela está: — resolvendo um problema social, — escrevendo um texto, — lembrando de uma conversa de 1998, — criando três projetos, — e imaginando que esqueceu alguma coisa (e esqueceu mesmo). O TDAH não é falta de atenção. É atenção demais, para coisas demais, ao mesmo tempo. Por isso a gente perde a chave. Mas tem ideia. Perde o horário. Mas tem propósito. Esquece o nome da pessoa cinco segundos depois. Mas lembra da história de vida dela. No fundo, o TDAH é assim: A cabeça é bagunçada. Mas o coração é comprometido. E a vida, para quem tem TDAH, pode até ser desorganizada às vezes… Mas nunca é sem graça. Se você encontrar uma pessoa com TDAH andando por aí meio avoada, não julgue. Ela pode só estar tentando lembrar onde estacionou o carro… Ou pode estar, ao mesmo tempo, pensando em como melhorar o mundo. Com TDAH, nunca dá pra saber. Mas uma coisa é certa: tédio essa pessoa não passa. Elaine Castelo Branco ✍️ Promotora de Justiça e escritora
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 21/03/2026
Comentários
|