

Manual não solicitado da vida adulta
Manual não solicitado da vida adulta
Dizem que a vida adulta chega aos poucos. Mentira. Ela chega de uma vez, sem aviso, geralmente numa terça-feira qualquer, às 10h17 da manhã, quando você percebe que está discutindo com um atendente sobre a segunda via de um boleto que você nem lembra por que existe. E pior: você está levando a discussão a sério. A vida adulta não começa quando você faz 18 anos. Ela começa quando você sente uma alegria genuína ao encontrar um pote que encaixa perfeitamente na tampa. Ali, algo muda. De repente, você tem opiniões firmes sobre marcas de detergente. Sabe exatamente qual panela “pega menos”. E desenvolve uma relação emocional com o ventilador da sala. Sim, emocional. Porque ele “não faz aquele barulho irritante” — e isso, na vida adulta, é praticamente um critério de felicidade. Outro marco importante é o dia em que você olha para uma conta de luz e diz: “Veio alto esse mês.” Não importa se você não entende absolutamente nada do cálculo. Você sente. E sentir, na vida adulta, é quase um método científico. Há também a fase em que você começa a desligar luzes que não foram você quem acendeu. Isso é um clássico. Você passa por um cômodo, vê a luz acesa e, automaticamente, desliga — mesmo que haja alguém ali. É um reflexo. Um chamado ancestral. Uma missão. E, claro, não podemos esquecer do sono. Na juventude, dormir era perda de tempo. Na vida adulta, dormir vira objetivo de vida. Você começa a cancelar planos com alegria genuína. E quando alguém diz “vamos sair?”, sua primeira reação não é entusiasmo. É cálculo. “Que horas acaba?” “Dá pra ir de chinelo?” “Tem comida?” Aliás, comida passa a ser o centro de qualquer decisão importante. E há um ponto especialmente delicado: o mercado. Ir ao supermercado, na vida adulta, é uma experiência quase filosófica. Você entra achando que vai comprar três coisas e sai com dezessete, nenhuma delas exatamente necessária, mas todas com uma justificativa emocional muito bem construída. “Esse molho pode ser útil.” “Essa promoção pareceu honesta.” “Esse chocolate… eu mereço.” E merece mesmo. Porque a vida adulta, no fundo, é isso: uma sequência de pequenas batalhas vencidas — algumas contra boletos, outras contra o cansaço, e várias contra a vontade de simplesmente deitar e não fazer mais nada. Mas a gente vai. Vai resolvendo. Vai aprendendo. Vai improvisando. E, no meio disso tudo, descobre que talvez crescer não seja sobre ter tudo sob controle. É sobre aprender a rir do fato de que nunca esteve. Elaine Castelo Branco
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 07/04/2026
Comentários
|