Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Crônica: O Drama Nacional do “Já Estou Indo”
Crônica: O Drama Nacional do “Já Estou Indo”
Por Elaine Castelo Branco
Promotora de Justiça e escritora nas horas vagas

Existe uma expressão no Brasil que não é exatamente uma mentira… mas também não chega a ser verdade. É uma espécie de território neutro entre o compromisso e a esperança. Ela se chama: “já estou indo”.

O curioso é que essa frase não descreve deslocamento físico. Não indica movimento real. Trata-se, na verdade, de um estado emocional.

Porque ninguém que diz “já estou indo” está, de fato, indo.

Quem diz isso está, no máximo, pensando seriamente na possibilidade de começar a considerar a hipótese de levantar.

Há casos clássicos.

O primeiro é o do amigo que ainda está no banho, mas responde com segurança:
— Tô chegando.

Chegando onde? Nem ele sabe. Talvez ao sabonete.

Outro clássico é o familiar que ainda nem escolheu a roupa:
— Já tô na porta!

Na porta de qual dimensão, não se sabe. Mas certamente não na da casa dele.

E há um nível mais sofisticado, quase filosófico, que é o:
— Cinco minutinhos.

Esse “cinco minutinhos” brasileiro merece estudo acadêmico. Ele não segue o sistema internacional de medidas. Não é cronológico. É afetivo.

Cinco minutos podem significar:
• 15 minutos, se a pessoa for otimista
• 30 minutos, se estiver tranquila
• 1 hora, se encontrou alguém no caminho (ou decidiu encontrar)

E o mais impressionante: ninguém se sente culpado.

Porque, no fundo, todos nós participamos desse acordo silencioso. É um pacto social não escrito. Uma espécie de Constituição paralela da convivência:

“Artigo 1º — Todo brasileiro tem o direito de dizer ‘já estou indo’ mesmo sem qualquer indício concreto de locomoção.”

E funciona.

Quem ouve também finge que acredita. Responde com um resignado:
— Tá bom, te espero.

Espera? Espera nada. Já sentou. Já pediu outra rodada. Já aceitou o próprio destino.

No fundo, o “já estou indo” não é sobre chegar.

É sobre manter viva a esperança de que, em algum momento, talvez, quem sabe, a pessoa realmente vá.

E isso, convenhamos, já é um esforço considerável.

Porque no Brasil, mais importante do que chegar…

é avisar que está chegando.

Mesmo que ainda esteja escolhendo a roupa.
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 07/04/2026


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