Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Crônica — TDAH: protocolo interrompido por pensamento paralelo
Crônica — TDAH: protocolo interrompido por pensamento paralelo

Por Elaine Castelo Branco

Hoje eu sentei para trabalhar.

Sentei mesmo. Postura de quem vai produzir.
Abri o computador. Respirei fundo.

E pensei: “Agora vai.”

Abri o documento.

E então lembrei que precisava beber água.

Levantei.

No caminho da água, vi um papel fora do lugar.

Arrumei.

Ao arrumar, encontrei uma anotação antiga.

“Preciso resolver isso.”

Sentei… mas não era para o que eu tinha sentado.

Cinco minutos depois, eu estava profundamente envolvida em uma tarefa que não era a tarefa.

Clássico.

O curioso do TDAH é que ele não te impede de fazer.

Ele só… redefine prioridades em tempo real, sem aviso prévio e sem qualquer compromisso com o planejamento original.

É quase uma gestão autônoma da própria mente.

Só que sem gerente.

E com excesso de iniciativa.

Porque falta de ação não é o problema.

Eu faço.

Faço muito.

Faço rápido.

Faço várias coisas.

Só não necessariamente a que eu deveria estar fazendo naquele exato momento.

Mas veja — há uma lógica interna.

Inexplicável, mas firme.

Se algo chama mais atenção, ganha prioridade.

Se parece mais urgente (mesmo não sendo), vira foco.

Se tem novidade… então esqueça. Já era.

E o mais interessante?

Quando o foco vem… ele vem.

Não é concentração.

É imersão.

É desaparecer do mundo por horas, resolver coisas complexas, conectar pontos improváveis, produzir como se houvesse um prazo invisível sendo cumprido com excelência.

Até alguém falar:

“Você viu aquela mensagem?”

Não vi.

Mas pensei em quinze coisas brilhantes enquanto não via.

E há também a arte de sair de um lugar e não lembrar por quê.

Isso não é distração.

É porque, no meio do caminho, a mente abriu outro assunto — aparentemente mais relevante — e seguiu.

Sem consultar.

Sem retorno.

Sem ata.

Se fosse uma reunião, já teria sido cancelada por falta de pauta.

Mas não é.

É só um cérebro funcionando em múltiplas camadas, sem hierarquia definida.

E, no meio disso tudo, existe uma tentativa diária de organização.

Agenda.

Lista.

Planejamento.

Tudo muito bonito.

Até o momento em que surge uma ideia melhor.

Porque o TDAH não ignora regras.

Ele só… negocia com elas.

E geralmente ganha.

No fim do dia, eu olho para trás.

Não fiz exatamente o que planejei.

Mas fiz coisas.

Muitas.

Importantes.

Algumas geniais.

Outras questionáveis.

E quase sempre… em uma ordem que ninguém conseguiria prever.

Inclusive eu.

E talvez esse seja o ponto:

O TDAH não é ausência de direção.

É excesso de caminhos acontecendo ao mesmo tempo.

E viver assim não é perder o controle.

É aprender a conduzir o caos com uma certa elegância…

Mesmo que, no meio do percurso, você precise voltar dois passos

porque esqueceu completamente

onde estava indo.
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/04/2026


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