

Crônica : A Língua Vermelha do Leão
A Língua Vermelha do Leão
Por Elaine Castelo Branco Nogueira Secretária do Lions Clube Belém Nazareth Há aprendizados que chegam em forma de grandes discursos. Outros, em longos treinamentos. E alguns — os mais memoráveis — vêm disfarçados de pequenas correções. Eu tinha pouco mais de cinco meses de Lions quando vivi um dos maiores sustos da minha breve e ainda inexperiente trajetória leonística. Estava naquela fase em que tudo parecia novo, solene e ligeiramente intimidador: protocolos, siglas, cargos, ritos, campainhas, martelos, companheiros, domadoras… e a inequívoca sensação de que todos ao redor dominavam perfeitamente aquele universo — todos, menos eu. Tomada pelo entusiasmo de quem deseja servir bem e impressionar melhor ainda, preparei um material institucional utilizando uma antiga logomarca do Lions. Era belíssima. Vintage. Clássica. Histórica. Charmosa. Tinha personalidade. Tinha imponência. Tinha tradição. Tinha também um detalhe que, à época, me pareceu absolutamente irrelevante: o leão ostentava uma vistosa língua vermelha. Apresentei o trabalho com o orgulho sereno de quem já se imaginava merecedora de algum prêmio honorário de excelência gráfica leonística. Foi então que o experiente companheiro Leão Guerino André Cayuela — várias vezes Secretário de Distrito e então Assessor Distrital de Relações Públicas — olhou para a arte com a calma de quem já viu de tudo e disse, sem alterar um músculo do rosto: — Não utilize essa logomarca com a língua vermelha. Gelei. Não foi um simples susto. Foi um colapso emocional em frações de segundo. Naquele instante, meu pensamento correu mais rápido que qualquer protocolo: “Meu Deus… o que foi que eu fiz? Será que existe um tribunal heráldico internacional? Uma comissão disciplinar para infrações cromáticas felinas?” Com a voz de quem aguardava a leitura de uma sentença, perguntei: — Por quê? E ele respondeu, com a serenidade devastadora dos sábios: — Porque ela não é mais utilizada. Só isso. Nenhuma reprimenda. Nenhuma aula solene. Nenhum constrangimento público seguido de registro em ata. Apenas uma orientação. Mas há orientações que dizem mais do que explicam. Naquele dia, aprendi que no Lions até a língua do leão obedece a protocolo. E compreendi, mais tarde, que aquela não era apenas uma observação sobre identidade visual. Era uma aula silenciosa sobre cultura institucional. Porque instituições sólidas se constroem também nos detalhes. No rigor. No cuidado. Na disciplina de preservar símbolos, história e identidade. Quem respeita a marca respeita a instituição. Quem cuida dos detalhes demonstra compromisso com a excelência. Quem aceita correções com humildade se prepara para liderar com maturidade. Hoje, quase dez anos depois, sempre que vejo surgir por aí uma antiga logomarca com seu leão de língua rubra e nostálgica, sorrio. Não sorrio com crítica. Sorrio com afeto. Porque imediatamente retorno àquela cena. E penso que, talvez sem perceber, o Leão Guerino Cayuela não estava apenas corrigindo uma arte. Estava, silenciosamente, ajudando a formar uma líder. Afinal, no Lions, até uma língua vermelha pode ensinar grandes lições.
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 11/04/2026
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