

A Mente que Corre Mais Rápido: Crônica sobre TDAH
A Mente que Corre Mais Rápido: Crônica sobre TDAH
Por Elaine Castelo Branco – Promotora de Justiça e Escritora Há quem diga, com certa leviandade, que pessoas com TDAH vivem no mundo da lua. Talvez digam isso porque não compreendem o que significa habitar uma mente onde nada acontece em marcha lenta. Mas a verdade é outra: quem tem TDAH não vive no mundo da lua. Vive em muitos mundos ao mesmo tempo. Enquanto o corpo permanece aqui — sentado, presente apenas na aparência — o pensamento já percorreu lembranças antigas, antecipou cenários futuros, concebeu ideias improváveis, imaginou soluções para problemas ainda inexistentes e, no percurso, perdeu-se em algum detalhe irrelevante, porém irresistivelmente fascinante. Por fora, distração. Por dentro, superlotação. É como se houvesse uma multidão inteira falando ao mesmo tempo dentro da cabeça. Uma música tocando ao fundo. Uma lembrança atravessando sem aviso. Uma ideia brilhante interrompendo outra ideia brilhante. Uma urgência inexplicável de fazer tudo agora. E, no meio disso tudo, a simples tentativa de lembrar onde foi deixada a chave — que continua, ironicamente, na própria mão. Há humor em viver assim, é verdade. Porque é preciso rir quando se entra em um cômodo sem saber por quê. Quando se pega o celular para responder uma mensagem e, vinte minutos depois, está-se lendo sobre arquitetura romana, migração das baleias ou a origem das palavras em sânscrito — sem qualquer lembrança lógica do caminho percorrido até ali. Mas há também exaustão. Porque pensar sem pausa cansa. Sentir intensamente cansa. Tentar organizar uma mente que produz mais rápido do que a vida exige cansa. O mundo, entretanto, costuma julgar mal aquilo que não compreende. Chama de preguiça o que é sobrecarga. De irresponsabilidade o que é desregulação. De desorganização o que, muitas vezes, é apenas excesso de estímulos disputando espaço dentro de um cérebro que não aprendeu a funcionar em fila. E talvez esteja aí a maior injustiça: confundir diferença com defeito. Porque quem vive assim não é menos capaz. Ao contrário. Frequentemente percebe antes. Sente mais fundo. Cria com mais liberdade. Conecta o improvável. Enxerga beleza onde outros veem rotina. Possibilidades onde outros enxergam limites. A mente acelerada, quando compreendida, não é um problema: é potência. Apenas exige manejo, acolhimento e respeito por sua própria arquitetura. Algumas pessoas pensam como quem caminha. Outras, como quem corre. Mas há aquelas que pensam como tempestades: belas, intensas, elétricas e impossíveis de conter. Se você conhece alguém assim, ofereça paciência. Se você é assim, ofereça a si mesmo misericórdia. Porque nem todo caos é desordem. Às vezes, é apenas genialidade em estado bruto aprendendo a respirar dentro do próprio furacão. Elaine Castelo Branco
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 11/04/2026
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