

QUANDO O ESPANTALHO SAI DO CAMPO
QUANDO O ESPANTALHO SAI DO CAMPO
Havia um campo onde todos os olhares estavam voltados para um único espantalho. Falavam dele quando o vento o inclinava. Comentavam quando sua roupa parecia gasta. Observavam cada movimento que nem era dele, mas das estações. Alguns passavam mais tempo olhando o espantalho do que contemplando a própria plantação. E, sem perceber, deixavam seus próprios canteiros secarem. Até que um dia o espantalho desapareceu. O campo ficou silencioso. Não havia mais palha para criticar, nem sombra para apontar, nem presença para ocupar conversas. Então algo curioso aconteceu. Muitos perceberam que não sabiam mais para onde olhar. Porque, às vezes, o espantalho nunca foi apenas um espantalho. Era distração para quem não queria encarar a terra abandonada dentro de si. Era ocupação para quem evitava perceber que as próprias sementes continuavam guardadas, nunca plantadas. A ausência do espantalho não entristeceu o campo. Entristeceu quem havia esquecido do próprio jardim. Mas a terra, sábia como sempre, permaneceu esperando. Esperando o instante em que aquelas mãos, antes ocupadas em recolher pedras do caminho alheio, finalmente tocassem o próprio solo. Porque nenhuma colheita nasce da vigilância. Toda colheita nasce do cultivo. E talvez exista uma beleza escondida quando o espantalho sai do campo: finalmente sobra espaço para olhar a própria terra. 🌿 Elaine Castelo Branco
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 20/05/2026
Comentários
|