Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

O Dia em que Meu TDAH Resolveu Rebatizar Francisco

Quem convive comigo sabe que o TDAH mora comigo.
Aliás, “mora” é pouco.

Ele paga aluguel emocional, muda meus planos sem avisar e, de vez em quando, assume a direção da minha vida sem possuir carteira de habilitação.

Na maior parte do tempo, somos grandes parceiros.

Ele me entrega ideias às três da manhã, inventa livros inteiros durante um banho, cria personagens enquanto escovo os dentes e faz versos nascerem onde as pessoas comuns enxergam apenas uma folha em branco.

Mas existe um pequeno detalhe.

Ele também adora pregar peças.

Daquelas bem elaboradas.

Resolvi escrever um cordel para contar o dia em que conheci o querido escritor paraense Francisco Pinto Mendes e agradecer o incentivo generoso que dele recebi. Era a minha forma de transformar em versos um encontro que despertou em mim uma nova paixão pela literatura popular.

Pesquisei sua trajetória.

Escolhi cada palavra.

Rimei.

Emocionei-me.

Revisei.

Revisei novamente.

Ou, pelo menos, achei que tinha revisado.

Porque, enquanto eu revisava o cordel, meu TDAH provavelmente estava ocupado com outra coisa.

Talvez revisando a lista de compras.

Ou lendo a programação da Feira Pan-Amazônica do Livro.

Quem sabe até conferindo a previsão do tempo para Marte.

O fato é que publiquei o cordel.

No WhatsApp.

No Facebook.

No Instagram.

No Recanto das Letras.

Compartilhei.

Comemorei.

E, cheia de orgulho, enviei também ao próprio homenageado.

Em nenhum momento ocorreu-me conferir justamente a única informação que jamais deveria estar errada: o nome do homenageado.

Fui dormir feliz.

Com aquela deliciosa sensação de missão cumprida.

Às 23h34 chegou a resposta de Chico.

Mas eu já estava no décimo sono.

Dormindo tão profundamente que, se alguém gritasse “erro de revisão!”, eu responderia apenas no sonho.

Na manhã seguinte, peguei o celular.

Sorri.

Pensei:

— Que bom! Chico deve ter gostado.

Abri a conversa.

Li a mensagem.

Ele escreveu, com toda a educação:

— “Francisco Luiz Mendes? Essa história é parecida com a nossa. Francisco Pinto Mendes.”

Naquele instante, senti minha alma dar um mortal carpado, meu estômago despencou para os pés e meu cérebro decretou estado de calamidade pública.

As sirenes tocaram.

Os neurônios foram convocados para uma reunião extraordinária.

Até aqueles que costumam faltar apareceram.

Foi a primeira reunião cerebral com quórum completo.

E, pela primeira vez na história, o TDAH alegou o direito de permanecer em silêncio.

Na mesa havia apenas um assunto:

Quem trocou o sobrenome do Chico?

Todos permaneceram em silêncio.

Então alguém apontou discretamente para o TDAH.

Ele continuou fingindo que estava sem internet.

Foi aí que a memória resolveu colaborar.

Lembrei que eu já havia publicado a homenagem…

…no WhatsApp.

…no Facebook.

…no Instagram.

…no Recanto das Letras.

Em outras palavras, eu não havia cometido um simples erro.

Eu havia realizado uma verdadeira campanha publicitária para um sobrenome que nunca pertenceu ao Chico.

Tenho quase certeza de que algum algoritmo das redes sociais passou a acreditar que existia um novo escritor paraense chamado Francisco Luiz Mendes.

Acho que, se existisse carro de som literário, ele também teria passado pela cidade anunciando:

— “Atenção! Promoção imperdível! Francisco Luiz Mendes autografa hoje!”

Confesso.

Por alguns segundos pensei seriamente em entrar para o Programa de Proteção às Testemunhas.

Ou mudar de nome.

Ou mudar de planeta.

Mas, como tudo isso exigia preencher formulários — e preencher formulários nunca foi meu ponto forte — resolvi fazer o mais sensato.

Pedi desculpas imediatamente.

Depois começou uma verdadeira peregrinação digital.

Corrige Facebook.

Corrige Instagram.

Corrige WhatsApp.

Corrige Recanto das Letras.

Só faltou interromper a programação da televisão.

“Plantão extraordinário!

Onde se lê Francisco Luiz Mendes, leia-se Francisco Pinto Mendes.

A autora informa que seu TDAH encontra-se foragido e qualquer informação sobre seu paradeiro poderá ser encaminhada ao Setor de Revisões.”

Enquanto eu apagava os incêndios virtuais, fiquei pensando na elegância do Chico.

Ele poderia ter me dado uma bronca.

Poderia ter feito uma brincadeira daquelas que eu jamais esqueceria.

Poderia até ter perguntado se eu havia resolvido lhe arrumar uma nova família.

Mas não.

Escolheu a gentileza.

Corrigiu apenas o necessário.

Com respeito.

Com delicadeza.

Sem ironia.

Sem transformar meu constrangimento em espetáculo.

Há pessoas que ensinam literatura.

Chico, naquele dia, ensinou também educação.

E foi justamente essa elegância que aumentou ainda mais minha admiração por ele.

Depois que tudo foi corrigido, percebi que ainda faltava consertar uma última coisa.

Meu coração.

Porque uma homenagem só é completa quando vem acompanhada de respeito.

Por isso fiz questão de pedir desculpas publicamente.

Hoje a vergonha virou gargalhada.

Aliás, acho que toda pessoa que escreve acumula um museu particular de trapalhadas.

Esta é apenas a peça mais recente da minha coleção.

Quanto ao meu TDAH…

Continuamos morando juntos.

Mas agora existe um novo protocolo de segurança.

Primeiro escrevo.

Depois reviso.

Reviso outra vez.

Durmo.

Leio novamente na manhã seguinte.

Peço para alguém ler.

Reviso mais uma vez.

E, finalmente, antes de publicar qualquer homenagem…

Pergunto ao homenageado:

— Só para confirmar… o senhor continua com o mesmo nome, não é?

Até hoje ninguém mudou de nome de um dia para o outro.

Mas, conhecendo o meu TDAH…

Prefiro não arriscar.

Vai que ele resolve rebatizar alguém de novo…

— Elaine Castelo Branco
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 26/07/2026


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