

A BONECA DE MIRITI “Há brinquedos que não foram feitos para crianças.” Depois do Círio, as ruas estavam quase vazias. Barracas desmontadas. Fitas espalhadas pelo chão. Restos da grande festa. Foi numa dessas manhãs que Clara encontrou a boneca. Estava caída perto de uma calçada. Pequena. Feita de miriti. Pintada à mão. Os olhos eram duas pequenas manchas negras. Estranhamente realistas. Clara levou o brinquedo para casa. A avó empalideceu ao vê-lo. — Onde você encontrou isso? — Na rua. — Jogue fora. Hoje mesmo. Clara riu. Achou exagero. Naquela noite colocou a boneca sobre uma cadeira ao lado da cama. Antes de dormir, olhou para ela. Parecia normal. Mas, durante a madrugada, acordou de repente. Teve a impressão de que alguém a observava. Abriu os olhos. A cadeira estava vazia. A boneca havia desaparecido. Assustada, acendeu a luz. Encontrou o brinquedo no pé da rede. De pé. Voltado para ela. Clara convenceu-se de que devia ter caído. Voltou a dormir. Na noite seguinte deixou a boneca dentro de uma gaveta. Trancada. Quando acordou, ela estava novamente ao lado da rede. De pé. Observando. Na terceira madrugada ouviu um ruído. Toc. Toc. Toc. Como passos pequenos percorrendo o quarto. Clara puxou o lençol até o rosto. O som continuou. Mais perto. Mais perto. Até parar ao lado da rede. Lentamente ela espiou. A boneca estava ali. Mas não parecia mais tão pequena. Nem tão inofensiva. Os braços pareciam mais longos. O sorriso mais aberto. E os olhos… os olhos pareciam vivos. Na manhã seguinte, Clara decidiu jogá-la fora. Lançou a boneca num terreno distante e voltou para casa. Naquela noite encontrou o brinquedo sobre seu travesseiro. Coberto de terra. A avó começou a rezar. Sem parar. Sem explicar nada. Na madrugada seguinte, Clara acordou com um peso sobre o peito. Tentou gritar. Não conseguiu. A boneca estava sentada sobre ela. Imóvel. Os olhos negros fixos em seu rosto. Então uma voz infantil sussurrou no escuro: — Agora eu encontrei você. O grito foi ouvido pelos vizinhos. Quando entraram no quarto, encontraram apenas a rede balançando. Clara havia desaparecido. Nunca foi encontrada. A boneca também não. Mas alguns vendedores de miriti contam que, de tempos em tempos, uma pequena boneca surge misteriosamente entre seus brinquedos. Ninguém sabe quem a colocou ali. Ninguém sabe de onde veio. E ninguém permanece muito tempo olhando para aqueles olhos negros. ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 08/08/2026
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