Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

O DIA EM QUE FUI PEGAR O ÓCULOS E ACABEI ORGANIZANDO A ESTANTE

Conviver com o TDAH é uma aventura tão emocionante que nem os roteiristas das melhores séries conseguiriam acompanhar.

Outro dia, por exemplo, levantei da cadeira com uma missão simples, objetiva e absolutamente possível: pegar meus óculos.

Parecia fácil.

No caminho até a mesa, vi uma caneta sem tampa.

“Puxa, alguém deveria tampar essa caneta.”

Como sou uma cidadã consciente, tampei a caneta.

Ao colocar a tampa, percebi que o porta-canetas estava desorganizado.

Organizei o porta-canetas.

Durante a organização encontrei um marcador de texto desaparecido desde 2023.

Comemorando a descoberta arqueológica, lembrei que precisava marcar uma página de um livro.

Fui até a estante.

Na estante notei que os livros estavam fora de ordem.

Comecei a arrumá-los.

Enquanto arrumava, encontrei uma fotografia antiga.

Sentei para olhar.

Ri.

Chorei.

Mandei a foto para três amigas.

Conversei meia hora sobre o passado.

Depois fui buscar água.

Na cozinha vi uma louça na pia.

Lavei a louça.

Observei que a geladeira precisava de limpeza.

Peguei um pano.

Nesse momento meu marido apareceu e perguntou:

— O que você está fazendo?

Respondi com toda sinceridade:

— Não faço a menor ideia.

Foi então que percebi que continuava sem os óculos.

Voltei para a sala.

Os óculos estavam na minha cabeça.

Quem não tem TDAH talvez ache estranho.

Quem tem TDAH sabe que isso é apenas uma terça-feira comum.

O cérebro de uma pessoa com TDAH não funciona em linha reta. Funciona em formato de árvore genealógica. Uma ideia gera outra, que gera outra, que se conecta a uma lembrança, que se conecta a um projeto, que se conecta a uma música que estava tocando em 1998.

É um sistema altamente sofisticado.

A NASA talvez não compreenda.

Nem nós.

Há também o famoso hiperfoco.

Passamos três horas pesquisando a origem histórica das colheres de sopa e esquecemos de almoçar.

Aprendemos tudo sobre a vida das capivaras amazônicas e esquecemos de responder uma mensagem enviada há cinco minutos.

Somos capazes de desenvolver um projeto inteiro de madrugada porque tivemos uma ideia brilhante às 23h47.

Mas não encontramos a chave que está na nossa mão.

A vida com TDAH é uma mistura de comédia, improviso e investigação policial.

Todos os dias procuramos alguma coisa.

Às vezes procuramos o celular enquanto falamos ao celular.

Às vezes procuramos os óculos que estão nos olhos.

E, em ocasiões especiais, procuramos a razão pela qual entramos em determinado cômodo.

Mas existe uma vantagem.

Nunca estamos realmente entediados.

Dentro da nossa cabeça acontece um congresso permanente.

Há pensamentos, memórias, ideias, planos, músicas, preocupações, projetos literários, listas de compras e uma vontade inexplicável de pesquisar alguma coisa completamente aleatória.

Tudo ao mesmo tempo.

Se é cansativo?

Às vezes.

Se é divertido?

Quase sempre.

Porque viver com TDAH é descobrir diariamente que a linha mais curta entre dois pontos pode passar por sete assuntos diferentes, três lembranças da infância, um projeto novo e uma caneta sem tampa.

E, no final de tudo, ainda esquecer o que estava procurando.

Mas encontrar uma boa história para contar.

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026


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