Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

A Síndrome da Pré-Feira do Livro

Existe uma condição rara que acomete escritores e leitores todos os anos.

Ela surge algumas semanas antes da Feira do Livro.

Os sintomas são facilmente identificáveis.

A pessoa começa a falar da feira em qualquer assunto.

Se alguém pergunta sobre o tempo, ela responde:

— Já viu a programação da Feira?

Se perguntam sobre o almoço:

— Ainda não sei, mas já escolhi os livros que vou comprar.

Se o tema é política, futebol ou trânsito, em menos de três minutos a conversa acaba inevitavelmente em autores, lançamentos e autógrafos.

É a chamada Síndrome da Pré-Feira do Livro.

Eu mesma já fui diagnosticada.

Os primeiros sinais aparecem quando começamos a imaginar como será o evento.

Será que encontrarei aquele escritor que admiro?

Será que alguém vai gostar do meu livro?

Será que conseguirei sair sem comprar mais livros do que consigo carregar?

A resposta para a última pergunta costuma ser não.

O curioso é que, antes da feira acontecer, ela já acontece dentro da nossa cabeça.

Os leitores fazem listas.

Os escritores fazem planos.

Os organizadores fazem milagres.

E os livros, silenciosos nas estantes, parecem esperar pacientemente pelo grande encontro.

Há também o fenômeno do “só vou dar uma olhadinha”.

Todos conhecem alguém que promete isso.

A pessoa entra determinada a gastar pouco.

Sai com uma sacola cheia, um sorriso no rosto e uma explicação financeira que não convence nem a ela mesma.

Mas talvez seja justamente essa expectativa que torna a Feira do Livro tão especial.

Ela não começa quando os portões se abrem.

Ela começa muito antes.

Começa quando um leitor marca a data no calendário.

Quando um escritor sonha com seu lançamento.

Quando uma criança descobre que existem histórias esperando para serem encontradas.

Quando uma cidade inteira passa a contar os dias para celebrar as palavras.

Por isso, enquanto a feira não chega, seguimos assim:

Espiando programações.

Falando de livros.

Planejando encontros.

E alimentando aquela deliciosa ansiedade de quem sabe que, em breve, as páginas ganharão voz e a literatura voltará a ocupar o centro da festa.

Porque algumas esperas são tão bonitas quanto a própria chegada.

— Elaine Castelo Branco

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026


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