

A Síndrome da Pré-Feira do Livro Existe uma condição rara que acomete escritores e leitores todos os anos. Ela surge algumas semanas antes da Feira do Livro. Os sintomas são facilmente identificáveis. A pessoa começa a falar da feira em qualquer assunto. Se alguém pergunta sobre o tempo, ela responde: — Já viu a programação da Feira? Se perguntam sobre o almoço: — Ainda não sei, mas já escolhi os livros que vou comprar. Se o tema é política, futebol ou trânsito, em menos de três minutos a conversa acaba inevitavelmente em autores, lançamentos e autógrafos. É a chamada Síndrome da Pré-Feira do Livro. Eu mesma já fui diagnosticada. Os primeiros sinais aparecem quando começamos a imaginar como será o evento. Será que encontrarei aquele escritor que admiro? Será que alguém vai gostar do meu livro? Será que conseguirei sair sem comprar mais livros do que consigo carregar? A resposta para a última pergunta costuma ser não. O curioso é que, antes da feira acontecer, ela já acontece dentro da nossa cabeça. Os leitores fazem listas. Os escritores fazem planos. Os organizadores fazem milagres. E os livros, silenciosos nas estantes, parecem esperar pacientemente pelo grande encontro. Há também o fenômeno do “só vou dar uma olhadinha”. Todos conhecem alguém que promete isso. A pessoa entra determinada a gastar pouco. Sai com uma sacola cheia, um sorriso no rosto e uma explicação financeira que não convence nem a ela mesma. Mas talvez seja justamente essa expectativa que torna a Feira do Livro tão especial. Ela não começa quando os portões se abrem. Ela começa muito antes. Começa quando um leitor marca a data no calendário. Quando um escritor sonha com seu lançamento. Quando uma criança descobre que existem histórias esperando para serem encontradas. Quando uma cidade inteira passa a contar os dias para celebrar as palavras. Por isso, enquanto a feira não chega, seguimos assim: Espiando programações. Falando de livros. Planejando encontros. E alimentando aquela deliciosa ansiedade de quem sabe que, em breve, as páginas ganharão voz e a literatura voltará a ocupar o centro da festa. Porque algumas esperas são tão bonitas quanto a própria chegada. — Elaine Castelo Branco ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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