

A Gente Vai Virando Memória
Há um momento da vida em que percebemos que já não carregamos apenas sonhos. Carregamos histórias.
Histórias de lugares que não existem mais, de pessoas que partiram, de ruas que mudaram de nome, de casas que foram derrubadas e de fotografias que amarelou o tempo. Quando somos jovens, acreditamos que a vida acontece apenas à nossa frente. Tudo parece futuro. Tudo parece começo. Os anos, porém, passam com a discrição de um ladrão elegante. Não fazem barulho ao entrar, mas levam consigo pedaços de nós. De repente, percebemos que somos a última pessoa capaz de contar determinada história. A receita da avó. A brincadeira da infância. A expressão curiosa de um tio já falecido. O jeito como uma cidade era antes dos prédios, dos engarrafamentos e da pressa. Então compreendemos algo extraordinário: a memória também é uma forma de amor. Recordar é impedir que certas pessoas desapareçam por completo. É oferecer abrigo àquilo que o tempo insiste em levar. Cada lembrança preservada é uma pequena vitória contra o esquecimento. Talvez seja por isso que escrevemos. Talvez seja por isso que contamos histórias aos filhos, aos amigos ou aos netos. Não para falar de nós mesmos, mas para construir pontes entre o que foi e o que será. A vida segue seu curso. Novas gerações chegam. Novas tecnologias surgem. Novas palavras ocupam o lugar das antigas. Mas, enquanto alguém se lembrar, nada estará totalmente perdido. No fim das contas, a gente vai virando memória. E há uma beleza profunda nisso. Porque algumas pessoas partem do mundo, mas permanecem para sempre habitando o coração de quem as amou. — Elaine Castelo Branco
ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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