Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Acordei decidida.

Naquela manhã, eu seria uma pessoa organizada.

Não uma pessoa mais ou menos organizada. Não. Eu seria uma dessas criaturas lendárias que sabem onde guardaram a certidão de nascimento, os óculos, a chave de casa e a senha do aplicativo do banco.

Levantei cheia de determinação.

A primeira missão foi arrumar a mesa de trabalho.

Encontrei três canetas sem tinta, dois carregadores de celular que não pertenciam a aparelho algum, uma conta vencida de origem desconhecida e um papel onde eu havia anotado algo extremamente importante.

Infelizmente, o papel dizia apenas:

“Não esquecer.”

Não informava o quê.

Segui em frente.

Abri uma gaveta para organizar documentos. Dentro dela havia documentos, claro. Mas também um elástico de cabelo, um botão solitário, um clipe enferrujado, um marcador de páginas e uma meia.

Uma meia.

Até hoje não sei como ela chegou lá.

Continuei firme no propósito.

Decidi então separar tudo por categorias.

Papel importante.

Papel muito importante.

Papel importantíssimo.

Papel que não faço ideia do que seja, mas tenho medo de jogar fora.

Essa última categoria ficou maior que as outras três juntas.

Depois de duas horas de trabalho intenso, a mesa estava linda.

Limpa.

Organizada.

Perfeita.

Foi nesse exato momento que percebi que meus óculos haviam desaparecido.

Procurei na mesa.

Nas gavetas.

Na cozinha.

No banheiro.

Na bolsa.

Nada.

Quarenta minutos depois, encontrei os óculos cuidadosamente guardados por mim mesma em um local tão seguro que jamais me ocorreria procurá-los ali.

Até hoje não consigo lembrar qual era o local.

No meio da busca, também perdi o celular.

Que estava na minha mão.

Ao final do dia, exausta, contemplei minha obra.

A mesa permanecia impecável.

Os documentos estavam classificados.

Os objetos estavam guardados.

E eu não fazia a menor ideia de onde estava qualquer coisa.

Foi então que compreendi uma verdade profunda:

A desorganização tem seus defeitos.

Mas pelo menos nela a gente encontra as coisas por acidente.

— Elaine Castelo Branco

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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