Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Existe um horário em que Belém ainda está acordando.

Mas não é às seis da manhã.

Às seis da manhã, o Ver-o-Peso já está na metade do expediente.

Quem chega cedo pela primeira vez pensa que encontrará tranquilidade.

Ingenuidade.

O Ver-o-Peso às seis da manhã parece uma reunião geral da Amazônia.

Tem peixe chegando.

Tem barco saindo.

Tem vendedor gritando.

Tem comprador pechinchando.

Tem cheiro de ervas, de frutas, de tucupi, de café e de uma centena de outras coisas que ninguém consegue identificar, mas que fazem parte da paisagem.

Outro dia resolvi passear por lá logo cedo.

Achei que seria uma caminhada contemplativa.

Uma experiência cultural.

Um encontro com a alma paraense.

Cinco minutos depois, eu já estava desviando de caixas de peixe, carrinhos, bicicletas, sacolas e pessoas que pareciam ter recebido treinamento militar para caminhar no mercado.

Uma senhora passou por mim carregando uma quantidade de verduras suficiente para alimentar um pequeno município.

Um rapaz equilibrava três caixas na cabeça.

Outro carregava uma cesta tão grande que eu ainda não entendi como conseguia enxergar o caminho.

Enquanto isso, eu tentava apenas sobreviver.

Foi quando ouvi a clássica pergunta:

— Vai levar o quê, minha filha?

Olhei para a banca.

Não sabia o nome de metade das frutas.

Sorri educadamente.

A vendedora percebeu.

— Tu não és daqui?

Ofensa gravíssima.

Expliquei que era de Belém.

Ela me examinou por alguns segundos.

— Então acordaste tarde para aprender.

E continuou atendendo outros clientes.

Saí dali convencida de que o Ver-o-Peso não é apenas um mercado.

É uma universidade.

Uma universidade amazônica.

E às seis da manhã os professores já estão dando aula há horas.

Quem chega despreparado aprende rápido.

Ou vira assunto na banca de ervas.

— Elaine Castelo Branco

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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