

Quem nunca entrou numa fila de tacacá em Belém não conhece os verdadeiros desafios da vida moderna. Porque aquilo não é uma fila. É um fenômeno social. Tudo começa de forma civilizada. As pessoas chegam. Sorriem. Conversam. Parecem perfeitamente educadas. Mas basta a primeira cuia aparecer para a transformação acontecer. De repente surge a ansiedade coletiva. Todo mundo começa a calcular. “Quantas cuias faltam?” “Será que o jambu acaba?” “E se a goma terminar?” São pensamentos profundos que só o paraense compreende. Outro dia entrei numa fila aparentemente pequena. Pensei: — Em dez minutos estarei sentada tomando meu tacacá. Uma hora depois, eu já conhecia a história de vida de metade das pessoas presentes. Uma senhora contou sobre os netos. Um senhor comentou a previsão da chuva. Outro iniciou uma análise detalhada sobre qual banca fazia o melhor tucupi da cidade. O debate foi mais acalorado do que muitas sessões legislativas. Foi quando apareceu aquela figura clássica. A pessoa que diz: — Só vou perguntar uma coisa. Toda fila sabe o que isso significa. Ela não vai perguntar uma coisa. Ela vai tentar descobrir uma forma criativa de chegar mais perto do balcão. Os olhares imediatamente se cruzam. Forma-se uma espécie de conselho informal de vigilância. Ninguém fala nada. Mas todos observam. A democracia paraense em sua forma mais pura. Quando finalmente chegou minha vez, senti uma emoção difícil de explicar. Era quase uma conquista olímpica. Recebi a cuia com a solenidade de quem recebe uma medalha. Sentei. Tomei o primeiro gole. O jambu começou seu trabalho. A língua adormeceu. O sorriso apareceu. E naquele instante compreendi por que ninguém reclama da fila. Porque a espera faz parte do ritual. O tacacá não é apenas uma comida. É uma recompensa. Embora eu continue acreditando que quem consegue chegar ao balcão sem enfrentar fila deveria receber um certificado de milagre amazônico. — Elaine Castelo Branco ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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