Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Quem nunca entrou numa fila de tacacá em Belém não conhece os verdadeiros desafios da vida moderna.

Porque aquilo não é uma fila.

É um fenômeno social.

Tudo começa de forma civilizada.

As pessoas chegam.

Sorriem.

Conversam.

Parecem perfeitamente educadas.

Mas basta a primeira cuia aparecer para a transformação acontecer.

De repente surge a ansiedade coletiva.

Todo mundo começa a calcular.

“Quantas cuias faltam?”

“Será que o jambu acaba?”

“E se a goma terminar?”

São pensamentos profundos que só o paraense compreende.

Outro dia entrei numa fila aparentemente pequena.

Pensei:

— Em dez minutos estarei sentada tomando meu tacacá.

Uma hora depois, eu já conhecia a história de vida de metade das pessoas presentes.

Uma senhora contou sobre os netos.

Um senhor comentou a previsão da chuva.

Outro iniciou uma análise detalhada sobre qual banca fazia o melhor tucupi da cidade.

O debate foi mais acalorado do que muitas sessões legislativas.

Foi quando apareceu aquela figura clássica.

A pessoa que diz:

— Só vou perguntar uma coisa.

Toda fila sabe o que isso significa.

Ela não vai perguntar uma coisa.

Ela vai tentar descobrir uma forma criativa de chegar mais perto do balcão.

Os olhares imediatamente se cruzam.

Forma-se uma espécie de conselho informal de vigilância.

Ninguém fala nada.

Mas todos observam.

A democracia paraense em sua forma mais pura.

Quando finalmente chegou minha vez, senti uma emoção difícil de explicar.

Era quase uma conquista olímpica.

Recebi a cuia com a solenidade de quem recebe uma medalha.

Sentei.

Tomei o primeiro gole.

O jambu começou seu trabalho.

A língua adormeceu.

O sorriso apareceu.

E naquele instante compreendi por que ninguém reclama da fila.

Porque a espera faz parte do ritual.

O tacacá não é apenas uma comida.

É uma recompensa.

Embora eu continue acreditando que quem consegue chegar ao balcão sem enfrentar fila deveria receber um certificado de milagre amazônico.

— Elaine Castelo Branco

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 09/08/2026
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