Elaine Castelo Branco

“Inspirar, servir e transformar — meu caminho, minha missão.”

Textos

Pinguim Balado acordou decidido a ter um dia tranquilo.

Era uma segunda-feira. O sol nem tinha terminado de espantar as nuvens e ele já estava discutindo com a chaleira porque a água demorava a ferver.

— Isso é perseguição! — resmungou.

A chaleira, sábia como toda chaleira antiga, permaneceu em silêncio.

Pinguim Balado tinha um dom raro: conseguia transformar qualquer contratempo em uma reunião de emergência. Se o café esfriava, era uma crise institucional. Se o sinal fechava, era uma conspiração internacional. Se alguém discordava dele, então o mundo inteiro estava errado.

O problema não era o coração do Pinguim. Seu coração era enorme. O problema era a velocidade da língua, que saía correndo na frente do pensamento como um menino atrás de um carro de sorvete.

E lá ia ele distribuindo palavras sem embalagem de proteção.

Depois, quando a fumaça da explosão passava, vinha o arrependimento.

— Não era isso que eu queria dizer…

Mas palavra é igual pena de travesseiro rasgado. Depois que voa ao vento, dá um trabalho danado recolher.

Foi então que um velho urubu do Ver-o-Peso, daqueles que já viram de tudo nesta vida, pousou perto dele e resolveu dar um conselho.

— Escuta, Pinguim. Nem toda batalha precisa ser lutada.

— Mas eu tenho razão!

— Pode até ter. Mas de que adianta ganhar a discussão e perder a paz?

Pinguim ficou quieto.

O urubu continuou:

— Há três coisas que um sujeito inteligente deve aprender: quando falar, quando calar e quando rir de si mesmo.

— E como eu descubro isso?

— Simples. Antes de abrir a boca, conte até dez.

— E se eu ainda estiver com raiva?

— Conte até vinte.

— E se continuar?

— Vá tomar um tacacá e volte amanhã.

Pinguim riu.

Pela primeira vez naquele dia, riu de si mesmo.

E descobriu uma verdade que ninguém lhe contara: a cabeça dura não quebra porque encontra um muro maior; ela muda quando percebe que algumas pessoas valem mais do que qualquer razão.

Desde então, Pinguim Balado continua sendo teimoso. Continua falando demais de vez em quando. Continua achando que está certo em noventa por cento das vezes.

Mas agora, antes de explodir, ele tenta lembrar do conselho do urubu:

“Palavras podem ser lanças ou pontes. A escolha é sempre de quem as pronuncia.”

E dizem por aí que, desde que começou a construir mais pontes e lançar menos lanças, a vida do Pinguim ficou muito mais leve.

— Elaine Castelo Branco

ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO
Enviado por ELAINE CARVALHO CASTELO BRANCO em 10/08/2026
Copyright © 2026. Todos os direitos reservados.
Você não pode copiar, exibir, distribuir, executar, criar obras derivadas nem fazer uso comercial desta obra sem a devida permissão do autor.


Comentários

Site do Escritor criado por Recanto das Letras